Segunda-feira, 9 de Outubro de 2006

Quinze minutos de fama

Lembro-me de uma cena hilária no Porto de Santos, lá pelos idos de 1954: um casal de ingleses desceu do transatlântico Andes, da British Royal Mail, vestidos como se estivessem chegando no meio da savana africana do final do século XIX. Botas de cano alto, chapéu tipo colonial, roupas cáqui de mangas compridas e véu protetor de mosquitos sobre a cabeça. Como eram ingleses, não creio que tivessem percebido o rídiculo e, no máximo, devem ter comentado entre si que o desagradável daquele lugar era a presença de tantos estrangeiros...

Pois temo que as coisas estejam caminhando para a reprise dessa situação. Li, agora mesmo, um artigo - jamais seria uma reportagem - do Joe Sharkey, aquele jornalista do NY Times que estava a bordo do Legacy no terrível acidente do vôo 1907. Leiam aqui.

Está certo que a globalização, a velocidade de deslocamento e a necessidade de as pessoas irem cada vez mais longe em busca seja de lazer, seja do ganha-pão, leva a algumas sérias modificações de hábitos e a outras tantas precauções. Coisas normais de pessoas minimamente inteligentes, o que parece não ser o caso de Joe.

Além de ser mais ou menos óbvio que alguém que carregue um celular numa viagem internacional espere que essa moderna máquina de fazer doido funcione em qualquer lugar do mundo - desde que tenha cobertura de sinal para celular, evidentemente - Joe Sharkey parece não gostar definitivamente do Brasil.

Senão, vejamos: para começar, antes que começassem as investigações ele já defendeu os pilotos americanos com unhas e dentes, como se estes fossem os únicos anjos do céu. Não satisfeito, levantou dúvidas quanto à imparcialidade da investigação levada a cabo pela FAB e autoridades brasileiras. Como se não bastasse, disse que eles pousaram numa "obscura base da força aérea" no meio da floresta.

O que ele queria? Um hotel de cinco estrelas no Cachimbo? Até temos alguma coisa semelhante... Mas não numa base aérea de floresta, feita para militares a quem o luxo é coisa secundária, supérflua especialmente quando estão trabalhando. E não acredito que alguém queira passar férias no Campo de Provas Brigadeiro Velloso. Base esta que, diga-se de passagem, de obscura não tem nada.

Joe Sharkey, com todas as suas críticas ao nosso país, ao nosso sistema, à nossa competência como investigadores de um acidente aéreo, esquece-se de levantar as mãos aos céus e agradecer. E agradecer a Deus tê-lo colocado num avião que foi construído robusto o bastante para apenas quebrar uma ponta de asa, não danificar tão seriamente assim o profundor e que conseguiu pousar pondo-o junto com os seus companheiros de viagem, em segurança no solo da "obscura base da força aérea", Campo de Provas Brigadeiro Velloso. E esse avião tão robusto foi construído pela Embraer. A nossa Embraer, brasileira, dirigida por brasileiros, com trabalhadores brasileiros.

E, com certeza, dentre esses trabalhadores tupiniquins, o mais humilde dos faxineiros saberia que carregar um celular para o meio da selva amazônica é bem pior do que esse obscuro jornalista - tão obscuro que confessa no início de sua matéria estar aproveitando o pouco que lhe resta dos seus quinze minutos de fama - disse: "Fora dos Estados Unidos, ele [o celular que ele trazia] equivale a segurar na mão um cachorro quente com mostarda."

É pior, Mr. Sharkey. Pelo menos, o hot-dog você poderia comer.
O celular não dá. Aliás, não daria nem mesmo para ser usado como supositório.
publicado por Jose Alpoim às 21:36
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Mudou de nome: a perseguida agora chama-se verdade!

É engraçado... Todos querem a verdade. Refinando: ambos a querem. No entanto, fogem dela. E não é ela que foge de ninguém, podem apostar. São eles. São os dois. Até parece a história do senhor já muito maduro, já pedindo ao médico não mais uma receita de Viagra, mas sim de alguma droga que o faça esquecer, que à noite, no leito conjugal, encontra as mais estapafúrdias desculpas para não cumprir o seu dever. E levanta-se da cama alegando qualquer coisa – até mesmo que escutou um barulho na cozinha ou que esqueceu de dar leite ao gato – só para poder fugir a obrigação. No bar, com seus companheiros e correligionários, arrota vantagens, mostra-se arrogante, diz que com ele não existe essa história de perseguida, mas sim de alcançada. À noite, a coisa muda... Ou então o outro, cheio de delicadezas e mesuras, que ergue um brinde de champanhe francesa e mostra ser capaz, também, de alcançar. Porém, a conquista realizada, não sabe o que fazer com ela.

Contudo, um deixa entender que não vai fazer nada mesmo, uma vez que já provou essa assertiva. Durante quatro anos, nada mais fez do que comer o pão. Infelizmente, o pão amassado pelo outro (ou por seus pares) durante os oito anos antecedentes.

E ambos dizem perseguir a verdade. Como falei antes, possivelmente sem nenhuma vontade efetiva de alcançá-la, pois isto feito, terão de dar conta do recado e, nesse ponto, sabem-se incapazes.

Mas, sejamos justos. Dos dois perseguidores, o já tão falado Picolé de Sechium edule, saiu-se bem melhor. Também não sabemos se, lá para o fim do mês, ele vai chegar à perseguida... E muito menos o que vai fazer com ela depois. Já o outro, antes Bufo hirsutus e hoje Bufo apopleticus, deu-se mal. Por muito pouco não virava suflê de sapo com jiló, tão amarga estava sua expressão.

E, uma pergunta: seria mesmo água que ele estava constantemente bebendo? Alguém conseguiu ver algum passarinho bebendo do mesmo copo?
publicado por Jose Alpoim às 14:17
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Domingo, 8 de Outubro de 2006

Sempre há esperança

Esta noite, às 20:00 hs, pela Rede Bandeirantes, terá lugar o segundo round do embate entre a utopia e a esperança. Lula vs. Alckmin. O primeiro round foi vencido – por pontos, e estreita diferença – pela utopia. Temos esperança neste segundo. Aliás, característica do povo brasileiro: sempre ter esperança.

Contudo, esse mesmo povo tem uma outra característica: é extremamente utópico. Pensa e crê em fantasias como se estas fossem realidades sólidas, comprováveis e factíveis.

Já por essa razão, devemos considerar um primeiro ponto de equilíbrio entre os dois contendores: tanto há esperança como defende-se a utopia.

Temos fé que, para esta luta, a platéia não continue a seguir a teoria proposta por Ludwig Wittgenstein em seu Tractatus Logico-Philosophicus, em que ele afirma que o homem se encontra numa sala e dela precisa sair; só que todas as portas são falsas – pintadas na parede. O homem tenta exaustivamente abri-las, mas é claro que não consegue. E – pior – não consegue ver que a única porta verdadeira está atrás dele. Para ganhar a liberdade, bastaria virar-se.

Mas a utopia – as portas pintadas – tem um aspecto mais bonito, parece mais atraente... E o homem insiste, tenta abri-las. Num relance, olha para trás, vê a porta verdadeira, mas despreza-a: uma porta com aspecto de velha, com a maçaneta grosseira e enferrujada jamais poderia ser a saída para a luz...

E ali estão as outras, todas novas, reluzentes, parecendo chamá-lo. Uma delas tem de ser a saída, ora bolas!

Esquece-se o homem de que a luz advém das trevas – a dualidade das coisas está aí para comprovar: só pode haver conceito de luz se confrontado com o de escuridão.

Mas voltemos ao nosso ringue. No corner vermelho, a utopia e no verde, a esperança. Ambos os contendores já disseram e alardearam possuir golpes mortais, fortes o bastante para levar o adversário a beijar a lona. Os analistas de plantão – leia-se comentaristas do tipo que preferem dizer quadrilátero em vez de ringue – afirmam que a utopia há-de derrotar a esperança usando os seus próprios pontos fracos. A imensa maioria baseados no passado, em lutas anteriores, em contendas que, correta ou incorretamente, foram vencidas. Já a esperança acredita na vitória por nocaute já nos primeiros minutos do embate. Conta, para isso, com uma fraqueza escarrada do adversário: falta de jogo de pernas – leia-se alicerce intelecto-cultural.

Ao mesmo tempo, parece – aos outros comentaristas, aqueles que são pelo menos um pouco mais preparados – que a esperança possui uma melhor capacidade de absorver golpes. E não tem queixo de vidro. Prova disso está no fato de até mesmo seu preparador ter chegado a desacreditar em sua vitória e ter até dado a impressão de estar buscando, junto à utopia, uma segurança, uma aliança ainda que subliminar ou, se quiserem, uma garantia de que não viria a ser perseguido em tempos posteriores.

Mas temos de ter fé... No mínimo a mesma fé que tem a esperança de que conseguirá encaixar um direto na utopia, pondo-a completamente fora de combate.

E nós, na platéia ao lado do córner verde, estamos torcendo para que a utopia, ao ser atingida, continue seguindo a teoria de Wittgenstein, ligeiramente modificada: sobre aquilo que é indefensável, é mais aconselhável calar.

E, em seu silêncio, acabará por mostrar e expor o queixo de vidro ou o fígado – este, que já deve estar bastante prejudicado – para o golpe de misericórdia, o cruzado de direita que, definitivamente, fará com que ela, a utopia, vá para o lugar de onde jamais deveria ter saído, ou seja, o chão com toda a sua poeira.
publicado por Jose Alpoim às 07:57
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