Terça-feira, 29 de Agosto de 2006

Vaidoso, sim. E por que não?

Criaram-me um blog... Meu filho deu-me esse presente – não sei ainda definir se é ou não um presente de grego – e impôs-me a condição de mantê-lo ativo. Ou seja, um abacaxi a mais para eu descascar entre os muitos que já tenho.

E quando ele me disse qual é a finalidade de um blog, assustou-me.

Tenho visto alguns blogs, todos de gente famosa, intelectuais de renome – vejam bem, não me atraíram aqueles cuja finalidade é apenas marcar presença na web – enfim, pessoas com motivos para terem um blog.

E eu? Por que eu? A troco de quê teria um blog?

Porém, sou obrigado a confessar que me senti envaidecido. Serei eu merecedor de tal honraria? O argumento de meu filho preocupou-me ainda mais: um blog, desde que se cuide dele, pode servir para que outras pessoas valorizem o seu trabalho...

Pode ser. Valorizar o trabalho intelectual é até relativamente fácil. O problema é valorá-lo. Isto, neste país, não é nada fácil. Aliás, tem-se a impressão que a valoração de um trabalho é inversamente proporcional ao conteúdo intelectual que esse trabalho possa ter: quanto maior, menor é a sua valoração.

E vamos passando fome, nós outros, que temos dependido da produção intelectual para sobreviver...

Mas, como disse, fiquei envaidecido. Não é muito de meu feitio confessar esse fato, mas enfim... Detesto imaginar que terceiros possam pensar que eu sou um vaidoso intelectual. Segundo Matias Aires em seu “Reflexões sobre a vaidade dos homens”, a pior e mais perniciosa das vaidades é aquela que vem da hipótese de que se sabe mais do que os outros, mesmo porque nada existe que mais agrade ao ser humano do que a idéia de ser superior intelectualmente aos outros. Isto praticamente garante a eternidade: estaremos na memória daqueles que ficam depois de termos ido embora. O objetivo do vaidoso intelectual é ser eternamente lembrado, é ser assunto de conversas e de debates. No fundo, a vaidade suplanta a vida, pois – pensa-se – ela leva à eternidade.

Para ser sincero, creio que eu seria mais adepto da teoria da douta ignorância de Sócrates: pode ser que seja a pessoa mais sábia do mundo justamente por saber que nada sei, ao mesmo tempo em que as demais pessoas simplesmente não sabem que nada sabem.

Mas tudo isso, no frigir dos ovos, não passa de manifestações – ainda que subliminares para o possuidor, embora escarradas para qualquer uma das outras pessoas – de uma imensa... vaidade.

Diga-se de passagem que a negação da vaidade é exatamente uma característica do vaidoso.

Basta ver Fernando Henrique Cardoso quando disse, numa certa entrevista, que se considerava mais inteligente do que vaidoso. À sombra de Matias Aires, com essa frase, FHC apenas provou ser mais vaidoso do que inteligente... Pegando o outro lado da moeda – quis dizer, indo para o lado oposto, falando do antagonista – o nosso atual presidente, o Lula, transpira vaidade por todos os poros: parece-me que seus assessores não querem ver que a humildade costuma nascer da vaidade; ou vice-versa, a vaidade advém de uma humildade que, de um momento para o outro começa a se tornar incômoda.

Mas não estamos aqui para falar da vaidade alheia... Seria, o cúmulo da vaidade, não é mesmo? Seria negar a verdade citada tanto por Matias Aires como por David Hume: o ser humano conhece e reconhece muito bem a vaidade dos outros, mas recusa-se a enxergar a sua própria.

Eu enxergo. E envaideço-me disso. Sou humano, sou vaidoso. Hei de morrer assim e só peço aos Céus que não me tirem – por qualquer razão – o direito de assim pensar e assim agir.Talvez não haja escapatória: o ser humano tem na vaidade uma de suas características, e ponto final. Não vamos querer disfarçar e negar, a vaidade é fundamental.

Ao homem é essencial ter vaidade. Se não a tiver, acaba por desprezar tudo, até a si mesmo. O homem sem vaidade não tem motivo algum para pensar em sua reputação, não ambiciona ser respeitado, não vê razão em ser caridoso – a caridade ser-lhe-ia uma virtude mercenária – confundiria lealdade com submissão...

Assim, temos de ser vaidosos. Não podemos deixar de lado a vaidade, pois ela ajuda a administrar nossos vícios. E não podemos esquecer que é muito fácil, não há necessidade de tempo ou de professor para se chegar ao vício.Por isso mesmo é que seria aconselhável aos Aspones do Planalto dizerem ao nosso presidente que ele tem de admitir – e saber administrar, e administrar pelo menos isso – a própria vaidade.

O homem sem vaidade não tem por que zelar pela própria honra.O não saber, por sua vez, não é virtude. E envaidecer-se da própria ignorância – ou da condição de ignorante – é simplesmente paradoxal.

Vaidade sente-se por algo que se é, não por aquilo que não se é. Explicando: não faz sentido ter vaidade do que não se sabe.Principalmente quando se tem a obrigação de saber.De minha parte, insisto: não nego a minha vaidade.

Aqueles que se dedicam a uma atividade intelectual – e para aqueles que não acreditam, ser escritor é exercer uma atividade intelectual – são sempre motivados pela vaidade, uma vez que os letrados não estudam para saber, mas sim para que os outros saibam que eles sabem.

publicado por Jose Alpoim às 21:26
link do post | comentar | favorito
|

>Sobre o autor...

>Pesquisar neste blog

 

>Links Recomendados

>Posts Recentes

> O Sebo

> O Crime da Beleza

> Sobre o Livro Ninguém par...

> JUS ESPERNEANDI

> Não vai sobrar ninguém

> Mais um para ouvir nossas...

> Rotina matinal

> Vivendo o inferno

> Considerações sobre a Ami...

> Vaidade Mórbida

> Quinze minutos de fama

> Mudou de nome: a persegui...

> Sempre há esperança

> Brasil, uma grande lagoa

> Será que há algo errado?

> Silêncio Perigoso

> O Hatzinger que ruge

> LANÇAMENTO

> Padre João Barca - Contos...

> O Brasil é maior do que s...

> O atraso que vem de cima ...

> Nem sempre rima é poesia

> ESPERA NA ETERNIDADE

> Vaidoso, sim. E por que n...

> O Livro como Fonte de Ren...

> A Beleza Feminina - Conto...

>Arquivos

> Janeiro 2008

> Setembro 2007

> Maio 2007

> Março 2007

> Dezembro 2006

> Novembro 2006

> Outubro 2006

> Setembro 2006

> Agosto 2006

>tags

> todas as tags

blogs SAPO

>subscrever feeds

Add to Technorati Favorites