Quarta-feira, 13 de Setembro de 2006

O atraso que vem de cima ou O Regresso para a Idade Média

A Atlantis teve êxito em sua missão. Pelo menos, até o presente momento, tudo está correndo bem lá em cima, fora a perda de um parafuso, uma porca e uma mola. Segundo consta, a porca sumiu no espaço, sem causar maiores preocupações momentâneas. Já o parafuso e a molinha, por terem escorregado pela fuselagem da nave, deixam uma ponta de medo de que eles penetrem em algum lugar indevido e venha a prejudicar fios e tubos...

Mas acho que tudo vai dar certo. Afinal, não é a primeira vez que o homem tenta colocar um parafuso, este não entra, cai e simplesmente desaparece. E o carro continua funcionando normalmente. Esperemos que o mesmo princípio se aplique a uma nave espacial.

Contudo, trapalhadas à parte, é inegável o valor científico do feito. Ir ao espaço, passear entre os corpos celestes, deixar a prisão da gravidade... Ninguém poderia sequer imaginar isso sete séculos atrás.

Aliás, até mesmo bem depois disso, até que terminasse o horror da Inquisição, perigava alguém que ousasse pensar nessas loucuras ir para a fogueira. Hoje, quem não acredita que isso seja possível é que se torna queimado entre seus amigos, conhecidos e até mesmo parentes.

O mundo evolui, o que vale dizer que o homem evolui.

A todo instante estamos vendo o progresso da Ciência, os novos medicamentos customizados de acordo com o DNA do paciente, as novas técnicas de cura que implicam na utilização de células muito jovens (não quis dizer células-tronco justamente para não despertar a polêmica antes da hora).

E, ao lado disso, o que vemos, também?

Vemos a Igreja Católica posicionar-se contra a utilização de embriões inviáveis – mas não tão inviáveis que não pudessem produzir as tais células jovens imprescindíveis para o tratamento de tantas pessoas e que, até poucos anos atrás não tinham mais esperanças de poderem continuar vivas. Vemos nosso Papa, Herr Hatzinger, dizer que a teoria do evolucionismo é irracional... Vemos todos os padrecos, padres, cônegos, bispos, arcebispos, cardeais e o próprio Papa queixarem-se da formidável diminuição das vocações religiosas. Mas, o que não se mostra à mídia, é que a própria Igreja Católica cria os mais inacreditáveis entraves para quem quer manter uma mínima que seja chama de religiosidade.

Por exemplo, há seis meses quero batizar minha neta, e não consigo. O padre exige que os padrinhos façam um curso de padrinhos e – o que definitivamente inviabiliza qualquer tentativa de batizá-la – seus pais, meu filho e minha nora, não são casados na Igreja.

Conclusão: Caroline provavelmente será ovelha de outro rebanho, uma vez que este pastoreio a recusou, e o resto da família correrá o risco de extraviar-se e passar a seguir um outro pastor que proporcione pastos mais fáceis de digerir e água sem tantos lobos por perto.

Não tivéssemos sido criados em regime estritamente católico, minha mulher e eu, com certeza teríamos aceitado o oferecimento de um nosso conhecido, umbandista, que garantiu não ser preciso nenhuma frescura para batizar a menina num terreiro de candomblé...

Voltando ao nosso Herr Hatzinger, fico imaginando se ele alguma vez já pensou por sua própria cabeça, deixando de lado os mofados livros em latim escritos até antes da Idade Média e os velhos grimoires cheios de fórmulas e de orações que os padres da Idade das Trevas escreviam – e escondiam deles mesmos.

Não posso acreditar que um homem – sim, pois não deixa de ser um homem, tanto assim que nasceu e há de morrer – como Herr Hatzinger, vivendo em pleno século XXI e com a obrigação de fazer uma aproximação da Igreja com a Modernidade, possa continuar a pensar que Darwin nada mais era do que um herege pecador e que a vida na Terra surgiu pura e simplesmente de um sopro de Deus. Assim, sem mais nada, sem a menos interferência do movimento browniano de moléculas, sem nenhuma obrigação de adaptação para a sobrevivência. Se isso fosse verdade inconteste, onde estarão os dinossauros vivos nos dias de hoje? E os mamutes? Por que eles perderam o pêlo, diminuíram as presas e alargaram as patas? Por que, enfim, transformaram-se em simples e simpáticos elefantes?

Não estaria aí uma prova da validade do evolucionismo?

E não haveria uma certa analogia do pensamento de Herr Hatzinger com o de um seu outro execrável conterrâneo, Herr Adolf, no que concerne a uma tendência de purificação, não étnica, mas sim religiosa? Por que o nosso Papa há de colocar o Deus dos Muçulmanos num plano inferior, ou seja, por que ele haveria de desdeificar Alá, se Alá é nada mais e nada menos que o nosso Deus para os muçulmanos? Teremos de todos os componentes da humanidade sermos filiados ao mesmo partido religioso? E onde está o privilégio – aliás dado pelo próprio Deus, embora não haja certidão do Céu com firma reconhecida, como bem queria o Poetinha – do livre arbítrio? Então Abdallah tem de adorar o Deus dos católicos porque aquele que lhe foi incutido desde as mais priscas eras simplesmente não vale?

E, para finalizar, Herr Hatzinger condena veementemente as guerras santas. Concordo. Toda e qualquer guerra deve ser condenável. Mas ele posicionar-se como se o catolicismo jamais tivesse partilhado dessa tendência, é um absurdo histórico. Então as Cruzadas – devidamente abençoadas pelos Papas de plantão – não foram guerras santas?

E quando Herr Hatzinger diz que o caminho para Deus jamais passa pela violência, como fazem os muçulmanos que impõem à custa de armas a fé no Corão, está esquecendo que a Igreja Católica fez igual, se não pior ainda, na época da Inquisição, quando obrigava judeus a negarem sua fé e – até mesmo mudando seus nomes – abraçarem o catolicismo. Sob pena de fogueira, se acaso se recusassem.

Na Homilia da Missa que oficiou em Regensburg, Alemanha, Herr Hatzinger condenou o fanatismo. Também concordo. Todo e qualquer fanatismo, especialmente o religioso, tem de ser condenado. Mas nosso Papa nada disse sobre a Opus Dei... E olhem que ela é apenas uma migalha de fanatismo dentro da Religião Católica.

Mas vamos deixar essa história da Opus Dei para uma outra ocasião, caso contrário vamos ficar escrevendo horas a fio...

Por enquanto, por hoje, apenas vale deixar aqui registrada a minha decepção com relação ao mais alto dignitário do Catolicismo, aquele que é o representante de Deus na Terra e o ocupante do Trono de São Pedro: não dá para entender por que não se pensa em evolução, dentro do Vaticano.

E, se não para evoluir, então o Vaticano deveria ser iluminado à luz de velas, usar tambores e pombos-correio no lugar de telefones e internet, andar de jegue em vez de usar um papamóvel e, por fim, jamais por os pés dentro de um avião – afinal se Deus quisesse que os homens voassem, ter-lhes-ia dado asas.
publicado por Jose Alpoim às 21:56
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