Sábado, 17 de Março de 2007

Rotina matinal

Deitado de bruços, com a cabecinha virada para o lado direito e um dedinho enfiado na boca, o menino dorme.
Um pedaço de fralda se enrosca na mesma mão do dedo que está na boca.
Movimentos de sucção, espaçados e leves, fazem mexer os lábios da criança e a respiração compassada e suave indica que o sono, ainda leve, pode ser rompido a qualquer instante, deflagrando uma incomensurável descarga de energia.
Sorrindo para o filho que começa a dormir, a mãe respira aliviada.
Sorri para si mesma, para o marido que está ao lado.
Recomenda, com um gesto, silêncio.
Olha mais uma vez para o filho, apaga a luz e fecha a porta.
— Parece um anjinho dormindo!
Sim...
Agora que está dormindo, parece mesmo um anjinho. Nada, em sua fisionomiazinha mostra os pouco menos de quinze quilos de dinamite que ali se encontram. Ninguém diria, ao ver esse sono tranquilo, essa respiração sossegada e calma, que até há poucos instantes, o menino não dava um minuto sequer de paz, uma só pausa para respirar.
Com pouco mais de dois anos de idade, caminhando ainda de forma insegura e muito mal articulando as primeiras palavras, já antes das seis horas da manhã estava de pé, na cama, gritando:
— Mamã! Papá! Mamã! Papá!
E, com essa alvorada, dava início a mais um dia de intenso movimento.
A menina que deveria tomar conta do moleque, como sói acontecer a todas, é absolutamente incapaz de resolver qualquer problema, de tomar qualquer atitude ou de, simplesmente, seguir corretamente as recomendações da mãe da criança.
A começar pela fralda suja que nunca é colocada no lugar certo e sempre é esquecida no meio do quarto — isso quando não fica em plena sala ou sobre a mesa de jantar — deixando todo o ambiente carregado com o seu cheiro característico.
Trocado o diabinho, com a roupinha limpa e cheirosa, todo arrumadinho, ele invade o quarto dos pais chamando alegremente pela mãe, obviamente não dando a menor importância ao fato de ela estar com sono, tentando em vão recuperar as horas de repouso perdidas, horas estas a que fora obrigada durante a noite porque, depois de ter comido meia dúzia de bananas verdes, o moleque passara pelo menos metade da noite rolando de dor de barriga. Já na noite anterior, não se explica por quê, ele resolvera brincar em plena madrugada e não houve força de argumento que o convencesse do contrário. Com isso, já eram duas noites seguidas que a pobre mulher dormia mal, acordando ainda mais cansada do que quando fora se deitar.
Com habilidade e carinho, ela consegue tocar para fora do quarto o seu rebento e tenta, novamente, deitar e cochilar.
Não consegue.
Para variar, a pagem não acerta a temperatura do leite na mamadeira, não sabe mais se pôs açúcar ou não, consegue, enfim, fazer o menino chorar, berrar e jogar todo o leite na roupa limpa.
— Mas o que é que está acontecendo? — pergunta a mãe, ainda cozida de sono.
— Nada, não, dona — responde a Mme. Curie — Ele é que não quer mamar...
— Sei disso! — pensa a mãe — Não é que ele não queira mamar... Você é que não tem a menor idéia de como se prepara uma mamadeira! Aliás, você não tem idéia nenhuma sobre assunto nenhum, sua incompetente!
Ela pensa, apenas pensa, a pobre mãe.
Bem que gostaria de poder dizer tudo isso para a pagem mas...
Se é ruim com ela, pior sem ela.
E não está nada fácil encontrar quem queira tomar conta de uma criança. Ainda mais uma criança como aquela, excessivamente viva e esperta...
Juntando o que lhe resta de forças e somando-as ao amor materno, ela se levanta e vai, amorosa, "desfiando fibra por fibra o coração", preparar outra mamadeira e dá-la, ela mesma, para o filho.
É claro que o moleque mama normalmente, esgota a mamadeira bem depressa...
A mãe, forçando um sorriso para a Simone de Beauvoir, fala:
— Agora, você vai me fazer o favor de ir brincar com ele lá no sol, aproveitem que a manhã está tão bonita! E não se esqueça de dar água para o menino de vez em quando!
Voltando para o quarto, encontra o marido já vestido e pronto para ir trabalhar.
— Agora que já acordei, para mal dos meus pecados, o melhor é ir arrumar a casa — diz para ele, com um beijo de despedida.
Não se passam dez minutos e ela escuta aquele grito de dor, grito este que dói muito mais na mãe, do que propriamente a dor que provocou o grito.
O menino entra correndo pela porta da cozinha.
— Que foi? Que foi, meu filho? Conta p'ra mamãe!
Uma longa frase, completamente ininteligível, dita em turco, em russo, chinês ou até mesmo tailandês, em meio a lágrimas, soluços e com um dedinho levantado, seguro pela outra mão, é toda a resposta que consegue.
Vira-se para a Santa Terezinha:
— O que é que aconteceu?
— Sei não, dona... De repente ele começou a chorar e a segurar o dedo. Acho que foi algum bicho que mordeu.
— E você não viu que bicho foi? — pergunta aflita a mãe, já pensando em alguma aranha ou escorpião.
— Vi não, dona — responde a filha de Einstein — Eu não estava olhando para ele...
Inútil tentar descrever o que a pobre mãe sente nessa hora. Pois se a Romy Schneider é paga para vigiar o moleque!
Após muita observação, muita dor de cabeça e preocupação, chega-se à conclusão de que ali onde ele estava brincando não poderia haver nada de mais perigoso do que uma formiga. Assim, o caso é encerrado, o dedinho devidamente medicado com um carinhoso beijo da mãe e o capetinha volta para o jardim acompanhado de seu anjo-da-guarda enquanto a mãe ainda diz:
— Não dói mais, filhinho! Vai andar agora de velocípede!
E, dirigindo-se à Margareth Thatcher:
— Tome cuidado para ele não cair em cima dos espinhos!
A pobre mulher ainda fica observando o filho se afastar correndo, a cada oscilada de seu corpinho, aquela pontada de susto:
— Vai cair!
Mas, ele não cai.
Ela ainda tem tempo de ver, antes de entrar para casa, o moleque passar pelo filho da vizinha, do mesmo tamanho e da mesma idade que ele, e dar-lhe um empurrão que o põe por terra, aos berros. O nosso pequeno santinho não se abala, mal olha para trás e segue em sua ruidosa carreira.
— Que bruto! — pensa a mãe, não sem uma ponta de orgulho — Eta, machinho...!
Resolve começar a arrumação pelo quarto do príncipe.
Quarta-feira, dia de limpeza mais funda, inicia pelos brinquedos.
Não há um só inteiro, nem para remédio.
Os novos já se encontram reduzidos a cacos e os velhos então, simplesmente não se consegue distinguir o que é que tinham sido quando novos.
— Porque será que ele quebra tanto os brinquedos? — pensa ela, desolada, enquanto arruma em uma cesta de vime um resto de avião ao lado dos escombros de um navio e uma sucata de caminhão.
Num canto do quarto, ao lado de uma pilha de revistinhas rasgadas, um exército de formigas disputa uma bala meio usada e que fora escondida para dias mais difíceis e, como provavelmente esse dia jamais chegara, a tal bala fora esquecida. Um dos cachimbos do pai — justamente aquele que ele procurara durante o fim-de-semana inteiro — se encontra dentro da caçamba de uma camioneta de plástico, cheio de terra.
— Meu Deus! Nem quero pensar no que ele vai dizer!
Guardando o cachimbo do marido, murmura:
— Nem parece que eu arrumei tudo isto ontem!
Não se sabe por que, ao acordar, o moleque tinha procurado sozinho as suas roupas e o resultado foi exatamente o que se poderia esperar: todas as gavetas vazias e todas as roupas no chão, devidamente pisadas e sujas.
Uma a uma, as peças que podem ser salvas de ir para a lavanderia, são sacudidas, dobradas e guardadas. Os brinquedos são arrumados na cesta, a bala cheia de formigas bem como toda a sujeira reinante , vão para o lixo, a cama é esticada, o chão é varrido.
Tudo está em ordem, bonito, limpinho.
A mãe olha sua obra, respira, sente-se satisfeita consigo mesma e vai pegar um bem merecido café e um cigarro.
Não chega nem mesmo a acendê-lo.
Uma correria, um barulho infernal: passa o cachorro rebocando, grudado em seu rabo, o menino, acompanhado da pagem, tudo isso em meio a gritaria, ganidos, objetos caindo no chão e arrastar de sapatos.
O caos se estabelece novamente.
Todos estão no quarto do moleque, sobre a cama, dentro da cesta.
O episódio não demora mais do que dois ou três segundos.
Quando a mãe reage, derramando o café no tapete, queimando-se com o fósforo e saindo atrás da turba, ela também, para o quarto do pequeno Satanás, a cena que aparece aos seus olhos é simplesmente aterradora. Sua vontade é de chorar, de deitar no chão e bater mãos e pés em absoluto desespero.
O moleque está coberto de barro, bem como o cachorro.
A cesta de brinquedos está virada e não há um só centímetro quadrado de chão no quarto que não tenha um resto de brinquedo e um tanto de lama.
Os dois, cachorro e menino, estão sobre a cama depois de, com a entrada triunfante quarto adentro, terem derrubado a cômoda de vime com todas as gavetas abertas e as roupas devidamente espalhadas.
Porém, o mais desesperador era ver, por sobre tudo isso, o olhar inteligente da Margueritte Yourcenar e os abanos simpáticos da cauda do cão.
publicado por Jose Alpoim às 07:59
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